
terça-feira, 30 de julho de 2013
modus operandi

Padre António Vieira
segunda-feira, 29 de julho de 2013
The Wall - irão os surfistas crescer algum dia?
[este é um excerto de um texto de Lewis Samuels, cronista da revista Surfer]
Tesouros de Criança
A gravidade do meu problema não se fez notar em
mim até o meu irmão olhar fria e longamente para a minha garage. Com o nosso
primeiro filho a caminho, a minha mulher tinha-me pedido para organizar a minha
caverna de homem, para arranjar espaço para carrinhos e cadeirinhas de bebé.
Ela sabia que não devia pedir-me para me ver livre de algumas pranchas - 41 da
última vez que contei, não contando com as que estão no Chile, Indonésia, Sul
da Califórnia e no norte. Em vez disso, a minha mulher pediu-me para arrumar a
parede de caixas recentemente trazidas da minha casa de infância. Tinha andado
a adiar isto há meses, apesar dos atraentes rótulos rabiscados nas caixas como
"Diários de Surf, Escola Secundária" e "Tesouros de
Criança". Eu sabia a história de Pandora. Sabia, com a prática de anos,
que a ignorância pode ser uma alegria.
Tesouros de Criança

Então, num dia de Inverno, abri uma cerveja e
destapei uma caixa, e dei por mim absorvido pelos talismãs e pequenas coisas
dos meus anos de formação como surfista: luvas de neoprene, talões de garantia
do meu primeiro fato Victory, pilhas de diários detalhando cada sessão, onda
por onda, desde 1990 em diante. Em vez de limpar e seguir em frente, comecei a
fazer um ninho. Organizei as minhas Surfer dos anos 80 numa prateleira. Liguei
o meu rádio tijolo, pus-me a tirar e a arrumar cassettes. Quando desenterrei a
pilha de posters que em tempos decoraram as minhas paredes, comecei a pô-los
por trás do suporte de pranchas, juntamente com os meus posters do Hendrix e
velhas fotografias queimadas do sol. Não senti apenas um toque de nostalgia -
senti-me feliz, em casa de uma forma que há muito não sentia.
Então o meu irmão apareceu, olhou para aquilo, e
perguntou-me por que raio é que tinha recriado o meu quarto de criança na
garage. Pareceu-me uma questão pertinente - questão que a
minha mulher, por gentileza, não me faria. Ali estava eu, aos 35 anos, e ainda
tão obcecado com o Surf que receava que o nascimento da minha filha fosse
coincidir com uma ondulação épica. Para lá da fachada de família nuclear, eu
sentia-me muito como uma criança, prestes a ter uma criança eu próprio. Raios,
eu estava a esconder-me no meu quarto de criança re-criado, a ler revistas
desbotadas enquanto a minha mulher lê livros de bebés lá em cima. Verdade seja
dita: eu tinha conseguido envelhecer sem nunca ter crescido... e suspeitei que
era a minha devoção ao Surf que me infantilizava.
domingo, 14 de julho de 2013
sit back and relax
"Um
idiota preguiçoso continua sempre a ser um idiota! E um preguiçoso
inteligente é alguém que reflectiu acerca do mundo em que vive, não se
trata, pois, de preguiça. É tempo de reflexão. E quanto mais preguiçoso
fores, mais tempo tens para reflectir. E é por isso que, no oriente,
isso se designa por filosofia oriental... A maior parte das pessoas tem
tempo. Quanto mais se desce para sul, mais encontramos profetas, magos,
pessoas que reflectiram sobre o mundo.»
Albert Cossery [1913-2008]
Albert Cossery [1913-2008]
![]() |
Reflectindo... foto Morgan Maassen |
sábado, 13 de julho de 2013
O Melro
http://www.youtube.com/watch?v=UaSMROk-D-A
Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise
Black bird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
all your life
you were only waiting for this moment to be free
Blackbird fly, Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
The Beatles - Black Bird
Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise
Black bird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
all your life
you were only waiting for this moment to be free
Blackbird fly, Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
The Beatles - Black Bird
Juan Ramón Jiménez
Paisaje Grana
La cumbre. Ahí está el ocaso, todo empurpurado, herido por
sus propios cristales, que le hacen sangre por doquiera. A su
esplendor, el pinar verde se agria, vagamente enrojecido; y las hierbas
y las florecillas, encendidas y transparentes, embalsaman el instante
sereno de una esencia mojada, penetrante y luminosa.

El paraje es conocido, pero el momento lo trastorna y lo
hace extraño, ruinoso y monumental. Se dijera, a cada instante, que
vamos a descubrir un palacio abandonado... La tarde se prolonga más
allá de sí misma, y la hora, contagiada de eternidad, es infinita,
pacífica, insondable...
- Anda, Platero...
Juan Ramón Jiménez
Platero y Yo, capítulo XIX
sexta-feira, 12 de julho de 2013
paradise [almost] lost
Muitas vezes nos interrogamos
porque é que haverá tanta falta de entendimento, tanta discórdia, tanta má
vontade e tanto ódio entre tanta gente. Obviamente que as razões são inúmeras, e
não se acrescentaria nada de novo pelo facto de as tentar exaustivamente enumerar.
O interessante é que, quando se
procuram respostas para essas questões, não só no que toca a relacionamentos
individuais, mas sobretudo nas grandes questões da chamada Humanidade,
reflecte-se (e sempre se reflectiu) com base no Homem como centro de todo o
pensamento. Galileu, em tempos, tentou mostrar que a Terra não era o centro do
Universo, e teve sérios problemas com isso. O Homem dito moderno torna a cair,
vezes sem conta, num erro semelhante.

No fundo, somos apenas animais,
com uma vida limitada, com reacções químicas mais evoluídas a nível cerebral
que nos permitem desenvolver raciocínios complexos. E que nos deviam permitir
compreender a nossa falibilidade e irrelevância. Tão irrelevantes como a Terra
o é na vastidão do Universo, algo para lá da nossa capacidade de compreensão de
seres inteligentes.
Ora, se o que se diz ser a nossa
marca distintiva é a capacidade de raciocínio, porque não fazer uso dela para
tentar perceber que temos que tentar fazer parte, e não controlar, dominar,
extinguir, esgotar recursos? Um excelente exemplo da tacanhez humana é o
conceito de vida inteligente no Universo. Porque é que a vida inteligente há de
ter que ser fisicamente semelhante ao humano? Porque o humano não consegue
deixar de se ver como um ser que paira num nível superior. Compare-se, como
reflexão, dois planetas Terra, tendo evoluído paralelamente, sendo que um nunca
teria tido a presença humana. Como seria uma Terra assim? Um paraíso intocado?
Certamente...
divagações tendenciosas

O
mesmo se aplica a todo o mundo onde o factor comercial tem alguma influência. A
nossa sociedade, dita evoluída, evoluiu na verdade para uma mascarada onde tudo
é aparente, onde os “valores” são criados, usados e recriados ao sabor das
flutuações das tendências, com a efemeridade e leviandade que isso implica.
Pode argumentar-se que tendências e modas sempre houve, que são estas que marcam
épocas e as definem. Sim, mas é preciso ver, e ter consciência, que vivemos
tempos em que essas mesmas modas e tendências já nada têm de genuíno, de
original. Nada mais são que recuperações e reinterpretações de tendências
passadas, nomeadamente das décadas de 60 e 70. Misture-se bem, adicione-se um
pouco de anos 50 e “early 80s” e têm-se os “gloriosos” primeiros anos do
terceiro milénio. Carros, roupas, sapatos, música até, pouco se faz de novo
nestes dias em que vivemos; reinvenções, receitas de sucesso revisitadas num
tempo falho de ideias, mas sobretudo de ideais que guiem uma geração. A imagem
do mundo actual é uma farsa. Falta identidade a toda esta geração que,
infelizmente, não se apercebe disso e consome desenfreadamente aquilo que se
lhe oferece sem questionar, sempre à espera, ansiosamente, do que virá a
seguir, sem se interessar minimamente do porquê da existência de toda essa
parafernália de objectos supérfluos que se tornam cada vez mais indispensáveis,
quanto mais não seja como elementos de integração numa comunidade. A realidade
actual, para onde quer que se olhe, está maquilhada constantemente, com toda a
superficialidade que isso representa. As tendências são conscientemente criadas
e lançadas por uma elite que, ao melhor estilo orwelliano, põe e dispõe da
massa de consumidores a seu bel-prazer, sem que haja uma consciência colectiva
que a isso se oponha com veemência. Os poucos que o fazem são desde logo postos
de lado, ostracizados pelo pecado do pensamento individual. São os
crime-pensantes dos nossos dias. “Freaks”, chamam-lhes. Reaccionários até. Mas
o verdadeiro futuro passa pelas mentes desses poucos “foras-da-lei” que
insistem em não embarcar na mediocridade, optando, por vezes com sacrifícios,
por se manterem fiéis a princípios ausentes da maioria da população, medíocre
por convicção.
[escrito em 13-7-2003]
terça-feira, 9 de julho de 2013
tuesday morning, 9 am

No fim de contas, até não terá sido uma manhã tão mal empregada, se estou aqui a comer uma torrada e um galão quente. Porque este sol parece de
verão mas ainda não aquece. São agora quase dez e meia, olho pela janela do café
e reparo que o pneu de trás da mota está em baixo. Azar, penso, viro costas e
continuo a saborear a manteiga derretida daquela bela torrada."
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