sexta-feira, 5 de setembro de 2025

um sonho que acaba por acontecer

Já muitas vezes falei, escrevi ou dissertei sobre isto, mas o prazer da antecipação é com frequência mais forte que o momento desejado, quando este finalmente chega.

Mas há dias em que... bem, há dias em que aquilo que é antecipado se vê superado por algo nunca esperado.

Em que o antecipado se vê ultrapassado pelo sonho, o sonho julgado impossibilidade, agora de surpresa tornado realidade. Algo que na verdade sempre tivemos como apenas matéria de devaneios, de ideais irrealizáveis, de sonhos loucos, está agora diante dos olhos, em pleno Agosto algarvio, água morna, céu azul, o vento quase ausente... 

Semanas, dias, noites de espera, de uma preparação inconscientemente consciente para uma desilusão desembocam afinal de contas na perfeição de um momento a que pouco ou nada há a acrescentar.

Linhas e linhas de ondas que galgaram a vastidão do Atlântico até ganharem as baixas profundidades deste lugar mágico, que mais mágico se tornou nesses dois dias, e sobretudo no dia que poucos esperavam ser "O DIA".

E essas linhas, como linhas de veludo côtelé, marcharam, séries delas atrás de séries delas, para se transformarem em pistas aquáticas de um prazer sem nome numa praia que, para mim, é desde sempre a minha casa: o meu lugar de refúgio e conforto.

Esse 27 de Agosto de 2025 fica na memória, não só de todos os que como eu dele tiraram todo o sumo, deslizando até à exaustão absoluta naquelas ondas maravilhosamente perfeitas, quentes e envolventes, como também nas memórias de todos os que talvez pela primeira vez assistiram ao fenómeno raro mas sempre maravilhoso de uma ondulação de mar de fora a deslizar praia fora, num misto de serenidade, beleza e encantamento.

Recomeça agora a espera. Porque sei, sabemos, que um dia um momento desses regressa. E a magia será a mesma. Para isso vivemos.


segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Maré do tempo



















Ponta do Molhe
2 de Setembro de 2024
12h34

Toda a vida ouvimos falar no tempo que passa - quando somos novos ignoramos, rimo-nos, vivemos, queremos crescer, ser grandes, poder fazer aquelas coisas aparentemente inalcançáveis na infância onde a felicidade reina absoluta, felicidade de que não temos noção.
Depois, os sinais desse tempo que vai passando vão surgindo, muitos deles puro prazer, marcas, cicatrizes ou medalhas de vidas cheias.
Mas esse tempo que passa raras vezes o vemos passar - ver com o olhar. É sempre uma ideia, um conceito, uma abstracção.
Mas, sentado longamente aqui, nas pedras do molhe, com o escuro do azul profundo do mar à minha frente e o vento como um afago, vou vendo a maré que sobe, um pouco mais agora, parecendo recuar, voltando, movendo-se, a maré que acelera trazendo outras águas e, quase sem me ter apercebido, sou testemunha do tempo que passou, um passado tão próximo feito presente e futuro diante do mesmo olhar. 
A água que não estava, agora está. 
A pedra há pouco descoberta tem agora o mar a abraçá-la. 
Eu vi o tempo a passar.
Não o senti apenas.
Vi um pouco da vida a acontecer, a linha do tempo que nasce na inocência de ser criança e corre até ao conformismo de um fim que todos sabemos ser inevitável.
A maré continua a subir, a água continua a passar, a correr, a vida ante os meus olhos a acontecer... E o prazer de estar consciente de estar aqui deixa-me por momentos feliz - uma luz, um acordar de consciência de fazer parte de algo maior, um universo que nos transporta a todos. 
Vendo a maré do tempo que passa. 

sexta-feira, 19 de abril de 2024

...do sol de Ipanema








Ouvindo, e vendo, um concerto de James Taylor gravado em 1970, dei por mim com aquela sensação cada vez mais recorrente de sentir que o tempo realmente passa. Não só por aqueles em quem vemos as marcas do tempo, mas por nós mesmos, onde as marcas do tempo demoram, aparentemente, mais a chegar. Na verdade, porque nós somos o Outro.

Entre aquela voz fantástica e o dedilhar inebriante na guitarra, apercebo-me que hoje ele é um velho senhor, com uma vida cheia, cheia de memórias, de momentos maravilhosos e outros naturalmente menos bons. Mas a vida é isso mesmo, a procura permamente por um equilíbrio constante. E ali, tão jovem e cheio de vida, ele é a imagem perfeita de uma eterna juventude que todos sentimos ter, cada um de nós convencido dessa mesma eternidade. Até um dia... 

E é nisso que penso, quando penso que continuo a construir memórias, memórias de momentos vividos tão só na vontade de viver esses momentos, de deixar o tempo ditar aquilo que será, instante após instante, dia após dia. Sem medo, de peito aberto e espírito livre. E esses momentos ficam, marcam, ganham raízes em nós e connosco seguem vida fora, parte de nós mesmos, que no fundo somos apenas a soma de todas essas memórias.

Estes últimos meses revelaram-se para mim um abrir de horizontes, abrindo o olhar para um mundo que se deixou ver muito para lá daquilo que eram os limites da percepção da vida que tinha até então. Sinto que muito daquilo que pensava passado pode ser afinal presente, e que o futuro só depende de nós, da ilusão com que encaramos cada dia, resgatando a juventude e a vontade de viver a cada passo, bebendo essa energia que cada momento e cada pessoa especial nos passa, como um elixir mágico que nos rejuvenesce e nos dá alento para olhar para o céu azul, vibrar de energia e querer gritar que a vida é realmente um milagre maravilhoso. Sem no entanto renunciar àquilo que somos, à carga que trazemos da vida que está para trás. É que por vezes basta um encontro, uma troca de palavras e de emoções para que a nossa percepção de tudo ganhe outra dimensão e nos leve a lugares com que nunca sonhámos. 

Sei que escrevo estas palavras a pensar em alguém que me fez ver mais além, que me ensinou, e ensina, a viver, a querer tirar da vida todo o sumo que ela tem; não somos, nem eu nem ela, pessoas perfeitas, mas é exactamente aí que a coisa se torna interessante. E só posso sentir uma gratidão sem tamanho por tudo o que ela me trouxe: vida, vontade de viver, de sonhar, de descobrir, de querer mais e ir mais além, consciente da maravilha que é a vida.

Um dia, tal como o James Taylor, vou olhar para trás e pensar: que vida maravilhosa esta...

Obrigado, moça do corpo dourado.

sábado, 23 de março de 2024

a decadência da essência cultural









Nos dias que correm, e de há uns tempos para cá, muita gente se apercebe que o mundo se tem tornado cada vez mais igual, um adolescente do sul da Europa veste-se da mesma forma que um adolescente do sul da Austrália, um executivo em Nova Iorque veste-se da mesma forma que outro jovem executivo em Frankfurt, a comida sabe toda ao mesmo onde quer que se vá... E os exemplos são infindáveis, com o turismo, que poderá ser o novo terrorismo, a arrasar sociedades inteiras em prol do benefício de cada vez menos.

A grande questão é o que acontece às identidades definidoras dos povos em cada lugar do planeta. Algo que foi o trabalho de milénios é agora dissolvido em pouco mais de um século, sendo que essa dissolução já lentamente teve início com as conquistas e explorações dos povos europeus em séculos passados.

Essas identidades, sedimentadas ao longo de gerações e gerações, levaram à criação de culturas, de modos de viver, de crenças e religiões, tudo isso ligado a territórios determinados, a climas determinados, a situações específicas que moldaram sociedades únicas, cada uma com as suas idiossincrasias.

Há quem já se tenha interrogado o que poderiam ser as Américas, a título de exemplo, se até hoje tivessem permanecido isoladas do contacto de outros povos. Não teriam a tecnologia dos europeus? Pois bem, teriam seguido outro caminho, e talvez hoje estivessem, enquanto sociedade, num lugar bem mais interessante que aquele onde se encontram.

Hoje, o politicamente correcto leva a que todos defendam acriticamente as trocas culturais (mas sobretudo económicas, mas isso é outra história...) como algo de grande valor na formação de cada um de nós, mas com isso a defesa e preservação das culturas ancestrais de cada povo numa lógica de continuidade morrerão a prazo. Mantidas apenas como peças de museu, curiosidades etnográficas ou atracções turísticas.

Os mesmos que defendem a multi-culturalidade e as trocas culturais como essenciais para uma cidadania mais consciente e informada, são os mesmos que defendem a preservação de cada uma dessas culturas exóticas e diferentes por si sós, sem se aperceberem que a sua própria interferência directa nessas mesmas culturas e modos de viver tem um efeito exactamente contrário, levando à sua progressiva dissolução e aculturação perante um modo de vida apelativo que tudo domina e que se sobrepõe a tudo o resto - o capitalismo criador de sonhos etéreos a que ninguém fica indiferente. Daí a explosão massiva das grandes metrópoles onde se amontoam milhões de seres em busca da melhor vida possível, cada vez mais despojados de qualquer identidade, iguais em todo o mundo, apenas funcionando como peças de uma gigantesca e disfuncional máquina de criar desilusões. Para benefício de uma elite que, igualmente despojada de qualquer identidade cultural ou social de relevo, mantém alegremente essa máquina a girar eternamente.

A solução? Não parece haver, pois teria que passar por um "retrocesso civilizacional" em que os povos reassumissem os seus modos de vida de outrora, afastando-se das influências que os fizeram desligar-se das suas raízes. Só assim poderia haver um mundo que preservasse a sua multi-culturalidade essencial.

E não uma multi-culturalidade que mais não é que um cozinhado que dilui todos os cambiantes de um mundo noutros tempos tão diverso e os transforma numa amálgama sem alma.

E isto para apenas ficarmos pelo lado humano da questão, sem entrar no mais complicado tema da preservação da bio-diversidade do planeta, que isso já são outros quinhentos - porque o Homem só olha para si próprio...


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Auto-consciência
















Há quem olhe para o mundo como uma tela.
Artista, dirão.

Há quem veja esse mundo como uma oportunidade de negócio.
Mercantilista, acusarão outros.

Há quem veja o mundo como um mapa infindável por onde viajar, por onde descobrir, onde se abrem horizontes e culturas uns após os outros.

Há quem olhe para o mundo e pense que todos temos que fazer algo para o melhorar, e com isso melhorar as nossas vidas.
As nossas vidas. Vidas humanas. O resto é paisagem.

E é exactamente aqui que está a diferença: conseguir ter a percepção de que o mundo não é nosso. O planeta não é um espaço à nossa disposição - nós, humanos, os supostos reis da criação.
Reis seríamos se nos déssemos conta que a nossa própria existência nos mata.

E só se aí chegarmos conseguiremos ganhar balanço para mudar as atitudes e trabalhar para o verdadeiro bem comum - que não é o bem comum aos Homens. Não. É o bem comum a todas as espécies que partilham esta bola azul connosco. Que não pára de rodar, por muito que nos julguemos no direito divino de tudo dominar- sem nos apercebermos da nossa ridícula pequenez. 

Reduzamos a ambição com que olhamos para o nosso planeta, deixemos de lado aquela exploração mineira, esqueçamos a multiplicação e a expansão daquele negócio para outros continentes, exploremos sim o nosso país, as nossas vizinhanças, deixando de lado o avião, boicotemos mesmo o avião!

Reduzamos a nossa presença às áreas que já condenámos, as grandes cidades. Devolvamos à natureza as áreas onde ainda tal é possível, isolemos as áreas intocadas. Isolemo-nos. Isolemo-nos como o vírus que somos e tentemos salvar verdadeiramente aquilo que nos dá vida: o planeta Terra e todas as espécies inocentes que, de uma forma ou de outra, sacrificamos no altar das nossas vaidades, seja a vaidade o prazer de usar um casaco de pele ou atravessar meio mundo de avião para carimbar um passaporte e dizer "eu vivi". Vivi porque viajei.

Não.

Viver é isso apenas. Viver. Diz-se que quem viaja vive. Mas quem viaja, hoje, vive mas tantos viajam de igual modo, que todos viajando matam.

O mundo acelerou, as viagens multiplicaram-se, a ocupação do território expandiu-se como um fogo que tudo acabará por consumir, e essas viagens mais não servirão que para assistir à verdadeira Terra queimada. Queimada pela nossa estupidez de tudo querer.

Poderá haver quem então continue a olhar para o mundo como uma tela.
Mas então uma tela em tons de negro.

Ou podemos, todos, pintá-la em tons de verde, com muito azul, e sobretudo muita vida. Vida para além de nós, humanos, que apenas estamos aqui de passagem. Mas uma passagem com uma factura bastante pesada...

Sejamos artistas. E apreciemos. E procuremos olhar para nós mesmos como iguais, como parte de um todo onde não somos mais que uma peça. Uma peça descartável. Cientes de um tempo em que nesta Terra o Homem seja apenas um episódio longínquo.


domingo, 8 de agosto de 2021

Sol Nascente mas não é Império

 Em tempos chamou-se "do Sol Nascente".

Depois, na esperança de manter o segredo como tal, mudaram-lhe o nome, mantendo os indesejados a distância segura.

Hoje já ninguém se lembra que se chamou "do sol Nascente", mas apesar dos indesejados terem chegado para ficar, continua a haver dias que fazem lembrar os tempos em que era o "Sol Nascente".



quarta-feira, 14 de março de 2018

há dias assim...

sul - 31 de Dezembro de 2017 - 7h30















Connaître, ce n' est point démontrer, ni expliquer. C' est accéder à la vision.
Conhecer não se trata de demonstrar, nem de explicar. É aceder à visão.

Si tu veut comprendre le mot bonheur, il faut l' entendre comme récompense et non comme but.
Se queres compreender a palavra felicidade, é preciso vê-la como recompensa e não como objectivo.




sexta-feira, 8 de setembro de 2017

The Ocean is Our Home















Knowing her fate,
Atlantis sent out ships to all corners of the Earth.
On board were the Twelve:

The poet, the physician, the farmer, the scientist,
The magician and the other so-called Gods of our legends.
Though Gods they were -
And as the elders of our time choose to remain blind
Let us rejoice
And let us sing
And dance and ring in the new
Hail Atlantis!

Atlantis - Donovan

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O meu Gato foi-se embora...

Ontem perdi-te, Amigo.
Nunca me disseste uma palavra mas sempre nos entendemos às mil maravilhas.
Foste sincero, agradecido, leal, alegre, dedicado como poucos.
Tive o privilégio de te conhecer toda a tua curta vida.
Desde um gatinho trapalhão até um gato destemido, forte e companheiro.
Hoje acordei e fiquei à espera...
Vejo-te aparecer onde sempre aparecias.
Espero sem esperança que saltes para esta mesa, que pises o teclado e ponhas o computador em modo de vôo...
Que me chames para abrir a torneira da banheira onde tanto gostas de beber água...
Que me peças com um miado que te abra a porta das traseiras para te ires deitar ao sol...
Não sei onde estás, Ptereco, mas espero ter-te dado o melhor que pude.

A tristeza é imensa.
Nunca na minha vida a morte foi um vazio tão enorme.
Nunca senti tanto a injustiça da vida.
Todos os que te conheceram sabem que eras especial.
E vais continuar a ser especial, meu Amigo.
Até sempre Ptereco Azeitona!


[O Ptereco nasceu em "miados" de Maio de 2014, encontrei-o no dia 10 de Junho desse ano e morreu no dia 26 de Abril de 2017]

quinta-feira, 28 de julho de 2016

"ignóbil trapo"

bandeira republicana proposta por Guerra Junqueiro














"[O] regímen está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados morais, nos serve de bandeira nacional - trapo contrário à heráldica e à estética, porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português - o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que, por direito mental, devem alimentar-se [...]
A monarquia, ainda que má, tem ao menos de seu o ser decorativa. Será pouco socialmente, será nada, nacionalmente. Mas é alguma coisa em comparação com o nada absoluto que a república veio a ser."

Fernando Pessoa, sobre a bandeira adoptada pela república

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Uma criança perdida na multidão













O João era uma criança que não teve a sorte de conhecer os pais.
Foi entregue a um casal que tratava dele e de outros Joões como ele.
Era bem tratado, sempre teve tudo o que podia desejar.
Passava os dias a correr e a saltar no campo, no meio dos sobreiros e das vastas planícies.
Comia bem, tornou-se forte, um dos mais fortes.
Gabavam-lhe o corpo e a destreza de movimentos.
Um dia, o casal chegou com um homem de boina e grandes patilhas, que o saudou e pareceu gostar muito dele.
O João e outros cinco rapazes entraram no camião e foram para longe.
O camião parou num lugar estranho. Um lugar onde nunca tinham ido.
Não havia ali campo. Não havia relva ou prados para correr.
Havia apenas quatro paredes e um cheiro acre na penumbra.
Um dos rapazes foi chamado e saiu da sala quase sem luz.
Ouviram-se gritos, palmas, alegria, o clamor de uma multidão em êxtase.
Talvez fosse bom!
Chegou a vez do João.
Saiu.
A luz surgiu, brilhante e ofuscante.
Ouviram-se gritos, palmas, alegria, de novo o clamor da multidão em êxtase.
Uma barreira de tábuas vermelhas abriu-se à sua frente.
Foi empurrado com duas varas pontiagudas.
Correu com a dôr para o centro do recinto coberto de areia.
O medo chegou. As perguntas surgiam de enxurrada.
Uma mais que todas. Porquê? Que teria ele feito?
Um homem de fato brilhante chamou-o. Ele avançou.
O homem de fato brilhante passou-lhe com desprezo um pano por cima e espetou-lhe dois ferros nas costas.
O João era forte. Não caiu.
A multidão gostou. Gritava em uníssono.
O homem de fato brilhante parecia animado.
O João sentiu pela primeira vez algo que nunca havia sentido.
Revolta, raiva, e sempre a incredulidade de aquilo estar a acontecer.
Às vezes tinha sonhos maus mas nenhum se aproximava daquilo.
Avançou com toda essa raiva para o homem de fato brilhante, que o esperava.
O homem desviou-se, como se já tivesse feito isto muitas vezes, e aproveitou a desorientação do João para lhe espetar mais dois ferros nas costas.
Desta vez, enfeitados com bandeiras coloridas.
A multidão foi ao delírio.
O João tropeçou.
Sentiu o sangue quente a escorrer-lhe pelas costas.
Algo lhe saía da boca. Sangue. Um dos ferros tinha-lhe furado um pulmão.
Quis reagir. Avançar para o homem de fato brilhante.
Mas já não via o brilho do fato. Já não via o homem. Os olhos turvavam-se.
Ouviu o clamor da multidão subir de tom e sentiu que algo o atravessava.
Um outro ferro.
Mas desta vez mais fundo, até à alma.
Deixou-se cair e sentiu a areia no rosto.
Sentiu o cheiro da relva, dos prados, dos sobreiros, dos pássaros que lhe pousavam no ombro.
Tudo lhe surgiu de repente mais claro que nunca.
E voltou ao prado verde, e correu, e saltou, e pulou. Para sempre.
Entretanto, um corpo de criança era arrastado para fora da arena, o sangue era limpo, e outro João era chamado.
Para que a multidão rejubilasse.

sábado, 16 de janeiro de 2016

A Sudoeste















É um país imenso.
Esmagador, impressionante, inspirador.
É realmente The Great Wide Open.


É um país de uma solidão pacífica, de horizontes longínquos.
Mas não só.
É muito mais. 

É tudo o que imaginamos e muito para além disso.

A Namíbia é a Natureza pura, muitas vezes intocada.
É o mundo antes do Homem.
É a nossa História à frente dos olhos.


E foi um prazer imenso e um privilégio poder estar lá.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

the meaning [revisited]

Kemp Alberg by Art Brewer










Toda a gente procura um significado quando sente que as coisas não fazem sentido.
Faz sentido esperar por momentos assim porque, mais cedo ou mais tarde, vão chegar.
E quantas vezes chegam sem nos darmos conta. E é então que sabem melhor e a consciência acorda e se ilumina.
É isto que faz a vida fazer sentido.
Prazer interminável que dura na alma uma eternidade.

terça-feira, 26 de maio de 2015

"Toutes les grandes personnes ont d' abord été des enfants, mais peu d' entre elles s' en souviennent."

"Todas as pessoas crescidas já foram crianças, mas poucas se lembram disso."

Antoine de Saint Éxupéry
in Le Petit Prince

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

chique a valer!




(...) E o que sobretudo o espantava eram as botas desses cavalheiros, botas despropositadamente compridas, rompendo para fora da calça colante com pontas aguçadas e reviradas como proas de barcos varinos...

     - Isto é fantástico, Ega!

     Ega esfregava as mãos. Sim, mas precioso! Porque essa simples forma de botas explicava todo o Portugal contemporâneo. Via-se por ali como a coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, à D. João VI, que tão bem lhe ficava, este desgraçado Portugal decidira arranjar-se à moderna: mas, sem originalidade, sem força, sem carácter para criar um feitio seu, um feitio próprio, manda vir modelos do estrangeiro – modelos de ideias, de calças, de costumes, de leis, de arte, de cozinha... Sòmente, como lhe falta o sentimento da proporção, e ao mesmo tempo o domina a impaciência de parecer muito moderno e muito civilizado – exagera o modelo, deforma-o, estraga-o até à caricatura. O figurino da bota que veio de fora era levemente estreito na ponta – imediatamente o janota estica-o e aguça-o, até ao bico de alfinete. Por seu lado, o escritor lê uma página de Goncourt ou de Verlaine, em estilo precioso e cinzelado – imediatamente retorce, emaranha, desengonça a sua pobre frase, até descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez, o legislador ouve dizer que lá fora se levanta o nível de instrução – imediatamente põe, no programa dos exames de primeiras letras, a metafísica, a astronomia, a filosofia, a egiptologia, a cresmática, a crítica das religiões comparadas, e outros infinitos terrores. E tudo por aí adiante assim, em todas as classes e profissões, desde o orador até ao fotógrafo, desde o jurisconsulto até ao sportman... É o que sucede com os pretos já corrompidos de São Tomé, que vêem os europeus de lunetas – e imaginam que nisso consiste ser civilizado e ser branco. Que fazem então? Na sua sofreguidão de progresso e de brancura, acavalam no nariz três ou quatro lunetas, claras, defumadas, até de cor. E assim andam pela  cidade, de tanga, de nariz no ar, aos tropeções, no deseperado e angustioso esforço de equilibrarem todos estes vidros – para serem imensamente civilizados e imensamente brancos...

     Carlos ria:

     - De modo que isto está cada vez pior...

     - Medonho! É de um reles, de um postiço! Sobretudo postiço! Já não há nada genuíno neste miserável país, nem mesmo o pão que comemos!

(...)

Eça de Queiroz – Os Maias, cap. XVIII

sexta-feira, 2 de maio de 2014

a duas décadas de distância



 








Pode parecer que não passou muito tempo desde esse triste primeiro de Maio, mas vinte anos são muitos anos. E a morte de Senna está já à distância desses vinte anos. Assim como já se passaram mais de vinte anos sobre as grandes conquistas de outro grande do desporto mundial, Tom Curren.



Ocorre-me referir este paralelo pelas semelhanças entre os dois: ambos tiveram carreiras em simultâneo, ambos atingiram o pico na mesma época, tinham aquela faceta de génios foras-de-série, bem como esse lado introspectivo, misterioso que não fazia mais que esconder uma certa introversão própria de quem vive no seu interior uma luta constante para se superar. E isso sempre veio em primeiro lugar na vida de cada um. Talvez tenham sido incompreendidos por isso, vistos como arrogantes, sentindo-se acima do comum mortal, mas o fogo interior que os guiava fazia na verdade com que pairassem acima de todos nós, vivendo numa abstracção nirvânica e num êxtase únicos quando em alta velocidade desenhavam as suas trajectórias. Génios.



Perfeccionistas, mestres do estilo e da arte de deslizar. Mesmo sobre água, Senna era um Curren que não deixava a sua máquina sair do caminho traçado. Curva após curva, aceleração sobre travagem, ambos levaram aos limites a pureza e a beleza de dois desportos aparentemente tão distintos, aproximando-os e aproximando-se como ícones, mitos para todos aqueles que apreciamos a verdadeira essência da estética no desporto.



Ayrton Senna e Tom Curren. Qualquer surfista que tenha vivido os anos de ouro de Senna, ou seja, toda a sua carreira, compreende a comparação.

Felizmente, Curren continua a encantar-nos com a souplesse das linhas do seu surf; Senna continua provavelmente com o pé no fundo, dentro daquele capacete verde-amarelo.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

território desconhecido















Territory

As the feather of a poet glides swiftly
on the white
of a sheet, we may aswell let ourselves
glide swiftly through the years
on the blue
of the tides
come and going as we come
as we go
hardening the beaten bones
through the turmoil of the days
but in the end it all comes
down to
the evidence
that all rights and all wrongs
just come with the
territory!

Can we tell if we see it
that the goods are there
before us
shine so bright
it's so blinding
waiting for a better chance
but we all know ev'ry swell
just won't last eternity
ageing bones
hardened skin
just climb aboard and
feel the stoke
despite all ups and all downs
water flowing will keep us going

letra de Luís Nascimento para música de João Rios


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Sabedoria a 10000 metros de altitude


















"Entraremos amanhã na noite. Que o meu país ainda o seja quando o dia chegar! Que será preciso fazer para o salvar? Como enunciar uma solução simples? As necessidades são contraditórias. Importa salvar a herança espiritual, sem a qual a raça será privada do seu génio. Importa salvar a raça, sem a qual a herança será perdida. Os teóricos, à falta de uma linguagem que concilie os dois salvamentos, serão tentados a salvar a alma ou o corpo. Mas eu não quero saber dos teóricos. Quero que o meu país exista  - no seu espírito e na sua carne - quando o dia chegar."

Antoine de Saint-Exupéry
in Pilote de Guerre

[tradução livre]