quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Auto-consciência
















Há quem olhe para o mundo como uma tela.
Artista, dirão.

Há quem veja esse mundo como uma oportunidade de negócio.
Mercantilista, acusarão outros.

Há quem veja o mundo como um mapa infindável por onde viajar, por onde descobrir, onde se abrem horizontes e culturas uns após os outros.

Há quem olhe para o mundo e pense que todos temos que fazer algo para o melhorar, e com isso melhorar as nossas vidas.
As nossas vidas. Vidas humanas. O resto é paisagem.

E é exactamente aqui que está a diferença: conseguir ter a percepção de que o mundo não é nosso. O planeta não é um espaço à nossa disposição - nós, humanos, os supostos reis da criação.
Reis seríamos se nos déssemos conta que a nossa própria existência nos mata.

E só se aí chegarmos conseguiremos ganhar balanço para mudar as atitudes e trabalhar para o verdadeiro bem comum - que não é o bem comum aos Homens. Não. É o bem comum a todas as espécies que partilham esta bola azul connosco. Que não pára de rodar, por muito que nos julguemos no direito divino de tudo dominar- sem nos apercebermos da nossa ridícula pequenez. 

Reduzamos a ambição com que olhamos para o nosso planeta, deixemos de lado aquela exploração mineira, esqueçamos a multiplicação e a expansão daquele negócio para outros continentes, exploremos sim o nosso país, as nossas vizinhanças, deixando de lado o avião, boicotemos mesmo o avião!

Reduzamos a nossa presença às áreas que já condenámos, as grandes cidades. Devolvamos à natureza as áreas onde ainda tal é possível, isolemos as áreas intocadas. Isolemo-nos. Isolemo-nos como o vírus que somos e tentemos salvar verdadeiramente aquilo que nos dá vida: o planeta Terra e todas as espécies inocentes que, de uma forma ou de outra, sacrificamos no altar das nossas vaidades, seja a vaidade o prazer de usar um casaco de pele ou atravessar meio mundo de avião para carimbar um passaporte e dizer "eu vivi". Vivi porque viajei.

Não.

Viver é isso apenas. Viver. Diz-se que quem viaja vive. Mas quem viaja, hoje, vive mas tantos viajam de igual modo, que todos viajando matam.

O mundo acelerou, as viagens multiplicaram-se, a ocupação do território expandiu-se como um fogo que tudo acabará por consumir, e essas viagens mais não servirão que para assistir à verdadeira Terra queimada. Queimada pela nossa estupidez de tudo querer.

Poderá haver quem então continue a olhar para o mundo como uma tela.
Mas então uma tela em tons de negro.

Ou podemos, todos, pintá-la em tons de verde, com muito azul, e sobretudo muita vida. Vida para além de nós, humanos, que apenas estamos aqui de passagem. Mas uma passagem com uma factura bastante pesada...

Sejamos artistas. E apreciemos. E procuremos olhar para nós mesmos como iguais, como parte de um todo onde não somos mais que uma peça. Uma peça descartável. Cientes de um tempo em que nesta Terra o Homem seja apenas um episódio longínquo.


domingo, 8 de agosto de 2021

Sol Nascente mas não é Império

 Em tempos chamou-se "do Sol Nascente".

Depois, na esperança de manter o segredo como tal, mudaram-lhe o nome, mantendo os indesejados a distância segura.

Hoje já ninguém se lembra que se chamou "do sol Nascente", mas apesar dos indesejados terem chegado para ficar, continua a haver dias que fazem lembrar os tempos em que era o "Sol Nascente".



quarta-feira, 14 de março de 2018

há dias assim...

sul - 31 de Dezembro de 2017 - 7h30















Connaître, ce n' est point démontrer, ni expliquer. C' est accéder à la vision.
Conhecer não se trata de demonstrar, nem de explicar. É aceder à visão.

Si tu veut comprendre le mot bonheur, il faut l' entendre comme récompense et non comme but.
Se queres compreender a palavra felicidade, é preciso vê-la como recompensa e não como objectivo.




sexta-feira, 8 de setembro de 2017

The Ocean is Our Home















Knowing her fate,
Atlantis sent out ships to all corners of the Earth.
On board were the Twelve:

The poet, the physician, the farmer, the scientist,
The magician and the other so-called Gods of our legends.
Though Gods they were -
And as the elders of our time choose to remain blind
Let us rejoice
And let us sing
And dance and ring in the new
Hail Atlantis!

Atlantis - Donovan

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O meu Gato foi-se embora...

Ontem perdi-te, Amigo.
Nunca me disseste uma palavra mas sempre nos entendemos às mil maravilhas.
Foste sincero, agradecido, leal, alegre, dedicado como poucos.
Tive o privilégio de te conhecer toda a tua curta vida.
Desde um gatinho trapalhão até um gato destemido, forte e companheiro.
Hoje acordei e fiquei à espera...
Vejo-te aparecer onde sempre aparecias.
Espero sem esperança que saltes para esta mesa, que pises o teclado e ponhas o computador em modo de vôo...
Que me chames para abrir a torneira da banheira onde tanto gostas de beber água...
Que me peças com um miado que te abra a porta das traseiras para te ires deitar ao sol...
Não sei onde estás, Ptereco, mas espero ter-te dado o melhor que pude.

A tristeza é imensa.
Nunca na minha vida a morte foi um vazio tão enorme.
Nunca senti tanto a injustiça da vida.
Todos os que te conheceram sabem que eras especial.
E vais continuar a ser especial, meu Amigo.
Até sempre Ptereco Azeitona!


[O Ptereco nasceu em "miados" de Maio de 2014, encontrei-o no dia 10 de Junho desse ano e morreu no dia 26 de Abril de 2017]

quinta-feira, 28 de julho de 2016

"ignóbil trapo"

bandeira republicana proposta por Guerra Junqueiro














"[O] regímen está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados morais, nos serve de bandeira nacional - trapo contrário à heráldica e à estética, porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português - o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que, por direito mental, devem alimentar-se [...]
A monarquia, ainda que má, tem ao menos de seu o ser decorativa. Será pouco socialmente, será nada, nacionalmente. Mas é alguma coisa em comparação com o nada absoluto que a república veio a ser."

Fernando Pessoa, sobre a bandeira adoptada pela república

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Uma criança perdida na multidão













O João era uma criança que não teve a sorte de conhecer os pais.
Foi entregue a um casal que tratava dele e de outros Joões como ele.
Era bem tratado, sempre teve tudo o que podia desejar.
Passava os dias a correr e a saltar no campo, no meio dos sobreiros e das vastas planícies.
Comia bem, tornou-se forte, um dos mais fortes.
Gabavam-lhe o corpo e a destreza de movimentos.
Um dia, o casal chegou com um homem de boina e grandes patilhas, que o saudou e pareceu gostar muito dele.
O João e outros cinco rapazes entraram no camião e foram para longe.
O camião parou num lugar estranho. Um lugar onde nunca tinham ido.
Não havia ali campo. Não havia relva ou prados para correr.
Havia apenas quatro paredes e um cheiro acre na penumbra.
Um dos rapazes foi chamado e saiu da sala quase sem luz.
Ouviram-se gritos, palmas, alegria, o clamor de uma multidão em êxtase.
Talvez fosse bom!
Chegou a vez do João.
Saiu.
A luz surgiu, brilhante e ofuscante.
Ouviram-se gritos, palmas, alegria, de novo o clamor da multidão em êxtase.
Uma barreira de tábuas vermelhas abriu-se à sua frente.
Foi empurrado com duas varas pontiagudas.
Correu com a dôr para o centro do recinto coberto de areia.
O medo chegou. As perguntas surgiam de enxurrada.
Uma mais que todas. Porquê? Que teria ele feito?
Um homem de fato brilhante chamou-o. Ele avançou.
O homem de fato brilhante passou-lhe com desprezo um pano por cima e espetou-lhe dois ferros nas costas.
O João era forte. Não caiu.
A multidão gostou. Gritava em uníssono.
O homem de fato brilhante parecia animado.
O João sentiu pela primeira vez algo que nunca havia sentido.
Revolta, raiva, e sempre a incredulidade de aquilo estar a acontecer.
Às vezes tinha sonhos maus mas nenhum se aproximava daquilo.
Avançou com toda essa raiva para o homem de fato brilhante, que o esperava.
O homem desviou-se, como se já tivesse feito isto muitas vezes, e aproveitou a desorientação do João para lhe espetar mais dois ferros nas costas.
Desta vez, enfeitados com bandeiras coloridas.
A multidão foi ao delírio.
O João tropeçou.
Sentiu o sangue quente a escorrer-lhe pelas costas.
Algo lhe saía da boca. Sangue. Um dos ferros tinha-lhe furado um pulmão.
Quis reagir. Avançar para o homem de fato brilhante.
Mas já não via o brilho do fato. Já não via o homem. Os olhos turvavam-se.
Ouviu o clamor da multidão subir de tom e sentiu que algo o atravessava.
Um outro ferro.
Mas desta vez mais fundo, até à alma.
Deixou-se cair e sentiu a areia no rosto.
Sentiu o cheiro da relva, dos prados, dos sobreiros, dos pássaros que lhe pousavam no ombro.
Tudo lhe surgiu de repente mais claro que nunca.
E voltou ao prado verde, e correu, e saltou, e pulou. Para sempre.
Entretanto, um corpo de criança era arrastado para fora da arena, o sangue era limpo, e outro João era chamado.
Para que a multidão rejubilasse.